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Presente para Gláucia - escrito por Roberto Vaver

 

Apesar de vir de uma família de pessoas brancas, convivi com pessoas negras desde a minha infância, mas pode ficar tranquilo que eu não partirei para o famoso clichê “não sou racista, até tenho amigos negros”, porque tenho consciência que a proximidade pessoal com pessoas negras não elimina o racismo que existe em nossa sociedade e que todos nós carregamos, mas o fato é que sempre convivi com pessoas negras, aprendendo a respeitar e a admirar estas pessoas, por serem pessoas dignas de respeito e admiração, independentes da cor da sua pele. A minha mãe sempre cobrou de mim que pedisse a benção a algumas pessoas negras que ela tinha em alta consideração e respeito, uma delas, inclusive, ela me ensinou a chamar de “vó” desde pequeno (“vó Dulce”), porque ela a considerava como uma mãe, por tê-la ajudado muito quando do nascimento de meus irmãos mais velhos e pela admiração que tinha por ela.

Agora a Gláucia me pediu (como presente de aniversário....) que escrevesse um texto sobre como é namorar uma mulher negra. Eu estava pensando em como escrever, o que iria relatar e comecei a refletir no que aprendi nesta experiência de 5 anos namorando uma mulher negra e concluí que a melhor maneira de escrever seria relatando alguma experiência que exemplificasse isso; assim, vou relatar duas experiências.

A primeira experiência é bem recente, aconteceu ontem, fui buscar um material que comprei em uma loja e como fiquei em dúvida sobre como fazer esta retirada, pedi ajuda a um funcionário que estava no local, ele perguntou pelo meu CPF e, ao mesmo tempo que ele falava, uma pessoa negra atrás dele também me disse algo que eu não entendi; forneci o número do CPF à primeira pessoa (que era branca, como eu) e ao falar o número percebi que a outra pessoa negra abaixou a cabeça e desistiu de falar comigo, então, após falar o número me dirigi a ele e disse “desculpe, você me falou algo que eu não entendi, pode repetir, por favor”, ele havia me questionado se havia recebido um código por e-mail, ao confirmar que recebi, ele me indicou onde digitar o código e imediatamente a porta se abriu com a mercadoria que comprei. Ele foi bem mais direto e rápido que o outro em me indicar como resolver o problema!


#ParaTodos - Uma montagem de 12 fotos geradas pelo fotos do google em todas estão o Gláucia e/ou Roberto.


A segunda experiência aconteceu quando estava com a Gláucia em um supermercado; estávamos juntos escolhendo bebidas num refrigerador no mercado, em determinado ponto, eu me afastei um pouco e ela ficou mais à frente mexendo diretamente no refrigerador e escolhendo os produtos que íamos levar, de tal maneira que quem olhasse pelo corredor central veria apenas ela e não eu que estava mais afastado. Um funcionário do supermercado (branco) se aproximou e vi claramente que ia falar algo para ela, parecendo talvez incomodado por ela estar mexendo no refrigerador, quando ele se aproximou mais e me viu atrás dela, mudou completamente a sua feição, não disse nada e apenas me cumprimentou gentilmente. Ficou claro para mim que se ela estivesse sozinha ele falaria alguma coisa!

Assim, concluindo este texto, aprendi, convivendo com a Gláucia, que não basta apenas reconhecer as virtudes, admirar e respeitar as qualidades de pessoas negras (aliás, de todas as pessoas, independentemente de sua cor!), como minha mãe me ensinou desde cedo, mas que eu, como pessoa branca, tenho que estar atento e tomar cuidado com a invisibilidade que nós brancos muitas vezes provocamos em pessoas negras, seja por atitudes pessoais (que podem ser voluntárias ou involuntárias), ao agirmos de forma diferente em relação a uma pessoa negra sozinha ou acompanhada de uma pessoa branca em um supermercado, por exemplo, seja pela sociedade que, através de anos de preconceito e discriminação enraizados faz com que muitas vezes pessoas negras retrocedam em suas iniciativas de resolver algum problema em detrimento de pessoas brancas, mesmo quando têm uma solução melhor a propor!

Não basta nós, brancos, sermos respeitosos e corretos em relação às pessoas negras, tratando-os de forma igualitária (o que é obrigação de todos), é preciso nos conscientizarmos das mazelas e danos que séculos de opressão causaram à nossa sociedade e termos um olhar e consideração especial em relação a isso, mesmo não tem sido nós que diretamente causamos estes danos! Talvez isso seja o que se chama ser antirracista, mas vou deixar esta interpretação para os leitores, porque me incomodo um pouco com conceitos, expressões que são formulados e apresentados como uma série de regras e procedimentos a serem seguidos.

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