Apesar de vir de uma família de
pessoas brancas, convivi com pessoas negras desde a minha infância, mas pode
ficar tranquilo que eu não partirei para o famoso clichê “não sou racista, até
tenho amigos negros”, porque tenho consciência que a proximidade pessoal com
pessoas negras não elimina o racismo que existe em nossa sociedade e que todos
nós carregamos, mas o fato é que sempre convivi com pessoas negras, aprendendo
a respeitar e a admirar estas pessoas, por serem pessoas dignas de respeito e
admiração, independentes da cor da sua pele. A minha mãe sempre cobrou de mim
que pedisse a benção a algumas pessoas negras que ela tinha em alta
consideração e respeito, uma delas, inclusive, ela me ensinou a chamar de “vó”
desde pequeno (“vó Dulce”), porque ela a considerava como uma mãe, por tê-la ajudado
muito quando do nascimento de meus irmãos mais velhos e pela admiração que
tinha por ela.
Agora a Gláucia me pediu (como
presente de aniversário....) que escrevesse um texto sobre como é namorar uma
mulher negra. Eu estava pensando em como escrever, o que iria relatar e comecei
a refletir no que aprendi nesta experiência de 5 anos namorando uma mulher
negra e concluí que a melhor maneira de escrever seria relatando alguma
experiência que exemplificasse isso; assim, vou relatar duas experiências.
A primeira experiência é bem
recente, aconteceu ontem, fui buscar um material que comprei em uma loja e como
fiquei em dúvida sobre como fazer esta retirada, pedi ajuda a um funcionário
que estava no local, ele perguntou pelo meu CPF e, ao mesmo tempo que ele falava,
uma pessoa negra atrás dele também me disse algo que eu não entendi; forneci o
número do CPF à primeira pessoa (que era branca, como eu) e ao falar o número
percebi que a outra pessoa negra abaixou a cabeça e desistiu de falar comigo,
então, após falar o número me dirigi a ele e disse “desculpe, você me falou
algo que eu não entendi, pode repetir, por favor”, ele havia me questionado se havia
recebido um código por e-mail, ao confirmar que recebi, ele me indicou onde
digitar o código e imediatamente a porta se abriu com a mercadoria que comprei.
Ele foi bem mais direto e rápido que o outro em me indicar como resolver o
problema!
A segunda experiência aconteceu
quando estava com a Gláucia em um supermercado; estávamos juntos escolhendo
bebidas num refrigerador no mercado, em determinado ponto, eu me afastei um
pouco e ela ficou mais à frente mexendo diretamente no refrigerador e
escolhendo os produtos que íamos levar, de tal maneira que quem olhasse pelo
corredor central veria apenas ela e não eu que estava mais afastado. Um
funcionário do supermercado (branco) se aproximou e vi claramente que ia falar
algo para ela, parecendo talvez incomodado por ela estar mexendo no
refrigerador, quando ele se aproximou mais e me viu atrás dela, mudou
completamente a sua feição, não disse nada e apenas me cumprimentou
gentilmente. Ficou claro para mim que se ela estivesse sozinha ele falaria alguma
coisa!
Assim, concluindo este texto,
aprendi, convivendo com a Gláucia, que não basta apenas reconhecer as virtudes,
admirar e respeitar as qualidades de pessoas negras (aliás, de todas as
pessoas, independentemente de sua cor!), como minha mãe me ensinou desde cedo,
mas que eu, como pessoa branca, tenho que estar atento e tomar cuidado com a
invisibilidade que nós brancos muitas vezes provocamos em pessoas negras, seja
por atitudes pessoais (que podem ser voluntárias ou involuntárias), ao agirmos
de forma diferente em relação a uma pessoa negra sozinha ou acompanhada de uma
pessoa branca em um supermercado, por exemplo, seja pela sociedade que, através
de anos de preconceito e discriminação enraizados faz com que muitas vezes
pessoas negras retrocedam em suas iniciativas de resolver algum problema em
detrimento de pessoas brancas, mesmo quando têm uma solução melhor a propor!
Não basta nós, brancos, sermos
respeitosos e corretos em relação às pessoas negras, tratando-os de forma
igualitária (o que é obrigação de todos), é preciso nos conscientizarmos das
mazelas e danos que séculos de opressão causaram à nossa sociedade e termos um
olhar e consideração especial em relação a isso, mesmo não tem sido nós que
diretamente causamos estes danos! Talvez isso seja o que se chama ser
antirracista, mas vou deixar esta interpretação para os leitores, porque me
incomodo um pouco com conceitos, expressões que são formulados e apresentados
como uma série de regras e procedimentos a serem seguidos.

Comentários
Postar um comentário